terça-feira, 17 de agosto de 2010

ADOÇÃO POR CASAIS HOMOSSEXUAIS

Abaixo coluna publicada no Jornal Fato de Rio Pardo.

Li estes dias que um juiz não permitiu a adoção de um bebe por um casal homossexual (há tramitações para aprovar uma lei neste sentido no Congresso)e o argumento foi que a dita criança, no momento em que passasse a entender as coisas, ficaria constrangida ou seria constrangida na escola por outros coleguinhas.

Entendo que isto até seria possível, esta menina ou menino talvez pudesse ser mesmo alvo da chacota de colegas, assim como também acredito que não seria nada que não pudesse ser revertido através da intervenção da escola, dos professores e mesmo dos próprios pais adotivos.

Tive várias oportunidades de entrar em abrigos de menores abandonados e estes locais sempre me tocaram muito.

Quando era piá, lá em Bagé, uma tia lecionava no Instituto de Menores, instituição albergue de crianças sem lar e ela me chamava para participar das festas juninas as quais eu ia a contragosto.

Eu sabia que algo me incomodava quando eu ia lá, pensava que era porque eu tinha preconceito em conviver com aquelas crianças e isto me deixava muito mal, me sentindo um monstro insensível e cheio de remorsos.

Hoje eu sei que não era nada de preconceito, o que incomodava era o olhar daquelas crianças, algo que eu não sabia ler por ser muito jovem, mas eram olhos vazios, onde não havia esperança e nem futuro, pois adoções naquela época eram muito raras e quando aconteciam, era quase como levar para casa mandaletes de luxo.

A argumentação do tal juiz que não permitiu a adoção pelo casal gay me deixou num primeiro momento pasmo e num segundo momento, ao me lembrar dos olhares desesperançados das crianças de Bagé, me deixou indignado, pois não há constrangimento maior do que não ter esperança, não ter futuro, não ter casa e não ter um colo de pai ou mãe para chorar as mágoas.

Sei que trazemos conosco um preconceito muito arraigado em relação ao homossexualismo, isto se enraizou em nós, certamente em razão da educação que tivemos, onde se dizia que isto era feio, que era uma aberração e que tínhamos que nos manter distantes destas pessoas.

Hoje vemos uma tendência melhor de compreensão e de aceitação da escolha sexual das pessoas, mas com certeza ainda há muito preconceito impregnado em todas as classes sociais, basta analisar a decisão do tal juiz.

Se me perguntarem se não me importaria de ter um filho ou filha gay, respondo que me importaria, mas não pelo fato em si, mas pelo calvário e pelo sofrimento que teriam de suportar por sua escolha.

Paulo Ene

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O BOM É VIRAR CINZAS

Há alguns dias faleceu minha mãe, lá em Bagé, aos 90 anos, bem vividos.
Sabe aquela situação que temos que encarar como a ordem natural das coisas? Pois é isto: o normal é os filhos sepultarem os pais, o complicado mesmo é o inverso.
Os leitores devem estar se perguntando e com razão - tudo bem e daí o que tenho a ver com isto?
Com a minha questão pessoal, nada a ver, mas a triste experiência me levou a pensar sobre os nossos complicados rituais fúnebres.
Primeiro vem toda aquela história de escolher o tipo de caixão, roupa, adornos, velas, flores, coroas, etc. – tudo o que alguém que perdeu um ente querido não gostaria de fazer.
Depois vem a compra da sepultura - se ainda não tinha sido feita em vida. Quer no primeiro ou no quinto nível? Ao comprido ou atravessada? – Sei lá!
Depois os funerais, onde se vela o falecido e passa-se uma noite em claro, tomando muito café e mate, jogando conversa fora com quem se arriscou ficar por ali, sim arriscou, porque de madrugada é uma barbada para os meliantes assaltarem uma família fragilizada pela perda, aliás, parece que na capital dos gaúchos nem estão mais velando ninguém de madrugada.
Bom, depois da noite insone começam a chegar os amigos, os familiares distantes, os conhecidos, os vizinhos, os ex-colegas, etc., aumentando consideravelmente a quantidade de pessoas, às vezes num espaço exíguo. Se for verão fica insuportável e se no inverno, desconfortável – quente lá dentro e frio na rua.
Na maioria das vezes estes cerimoniais servem para fazer o reencontro de parentes esparramados pelo mundo, gente que era muito chegada e que, passados vários anos, acham-se nas exéquias de um familiar.
Neste momento a cerimônia fúnebre torna-se quase uma festa, muita gente na rua, muitos abraços e beijos, muitos “bah como tu tá bem”; outros pensando, mas não dizendo e outros até dizendo: “mas tu tá um caco”; algumas ruminando: “esta aí não pode estar mais repuxada de plástica”; uns pensando ao ver o carro velho de um que chegou de longe: “quem te viu quem te vê”...; outros ao ver um chegando com um carrão novo: “este aí deve estar mamando”...
E assim vai até a hora do sepultamento. Os mais chegados do falecido virados num bagaço, tanto física como psiquicamente, ainda tem que enfrentar toda esta maratona.
As grandes cidades enfrentam sérios problemas de espaço para sepultar seus mortos, isto sem falar nas questões higiênicas.
A grande saída, sem dúvida, é a cremação, que transforma tudo num punhado de cinzas as quais podem ser colocadas em qualquer lugar.
As minhas, por exemplo, serão jogadas em determinado lugar, lá no Gavião e servirão para adubar os pastos que uma vaca irá comer – nada mais justo: adoro carne e em carne me transformarei.
Só que cremar ainda é um processo muito caro, disponível somente nos grandes centros, o que dificulta até para quem pode pagar, mas está lá nos confins do Rio Grande.
Talvez fosse o caso de o governo estadual e federal, em conjunto com a iniciativa privada – as PPPs, construírem crematórios regionais para procurar sanar esta lacuna, mas isso é uma utopia, pois não conseguimos construir nem presídio, o que dirá crematório?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Deficientes de educação

Desde o ano passado não escrevo no blog, a última vez foi em dezembro, quando parei de fumar (e continuo sem fumar). Como escrevo duas vezes por mês para um jornal aqui de Rio Pardo - O Fato, achei uma boa idéia reproduzir algumas destas colunas aqui no blog.
Aí vai a última...

Deficientes de educação

Faz pouco tempo a principal rede de supermercados da nossa cidade criou vagas de estacionamento para deficientes físicos, ato louvável por sinal.
Acontece que tenho observado que estas vagas, por serem próximas à entrada, estão sempre ocupadas.
Fiquei pensando, será que temos em Rio Pardo tantos deficientes físicos assim? Claro que se somarmos todas as possíveis deficiências físicas, como surdez, falta de um membro superior, alguma mutilação, falta de uma unha, o número será bem elevado.
Só que estas vagas de estacionamento são para pessoas com dificuldades de locomoção, como cadeirantes e outros com alguma deficiência nos membros inferiores que limite o movimento normal de caminhar.
Várias vezes, ao ver as pessoas que estacionaram nas vagas descerem dos seus carros, pude ver que eram bem conhecidas e até onde eu sei não possuem nenhuma deficiência de locomoção, talvez tenham alguma dificuldade visual, por não enxergarem as placas bem grandes com o símbolo de um cadeirante.
Estou falando neste assunto, porque há poucos dias ganhou expressão na mídia nacional o fato que ocorreu em Porto Alegre de uma pessoa que foi espancada violentamente por ter chamado a atenção de um motorista que estacionara em vaga de cadeirante sem sê-lo.
Confesso que várias vezes tive o ímpeto de avisar os descuidados, mas me retraí por entender que quem deveria fazer isto é a administração do supermercado. Afinal de contas ali é um estacionamento particular e quem deve zelar por ele são os seus detentores, mas nunca vi ninguém ser alertado por seu erro pelos funcionários do mercado.
Dia destes um comerciante da Andrade Neves, cujo estabelecimento fica na área onde tem estacionamento exclusivo para automóveis e motos, foi alertar um motoqueiro que ele seria multado porque ali era exclusivo para carros e levou a tal da esculachada em altos brados do dito cujo: “o que tu tem a ver com isto? Quer aparecer? Vai te meter com as tuas coisas!”.
Pois é isto, as pessoas no intuito de ajudar ainda tomam uma xingada e aí fica o impasse: ou tu te indigna e retribui o xingão no mesmo nível e talvez tenha que partir para a ignorância ou tu engoles o sapo e vai para casa com aquilo te roendo por dentro e te sentindo um idiota, porque quem tinha a obrigação de coibir aquilo não o fez – no caso, os agentes de trânsito ou a Brigada Militar.
De tudo isto sempre temos que tirar alguma lição: a primeira acho que todos já sabem qual é: para chegarmos ao primeiro mundo em termos de educação, ainda faltam uns mil anos!
A segunda é a seguinte: se fores chamar a atenção de alguém que cometeu ou em vias de cometer uma infração de trânsito, olha primeiro como está o teu seguro de vida ou se o plano de saúde está em dia, de repente será necessário usar um ou outro ou os dois...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Parei de fumar

Pois é rapaziada, após 42 anos de longas e prazerosas baforadas, larguei o pito.

Nestes 15 mil e tantos dias de puro enlevo nicotínico, não tenho como negar, pelo menos na metade deles pensei em parar, principalmente nos últimos anos, quando as campanhas anti-tabagistas se acirraram e nós os fumantes passamos a ser considerados verdadeiros portadores de uma incurável e altamente contagiosa virose.

Primeiro proibiram o fumo nos cinemas, para os que não sabem, era permitido fumar durante as sessões e era bem bom puxar profundas tragadas durante um filme de suspense, daqueles em que o vilão chega por trás da inocente mocinha com afiada adaga para penetrar sua pulsante jugular...

Depois proibiram fumar nos aviões, aí foi um terror porque além de ter que conviver com a emoção e a sensação de morte iminente, esta (a morte) tinha que ser sem aquela gostosa bengala do cigarro bendito. Quer coisa mais charmosa que apagar seu cigarrinho nas revoltas águas do Caribe?

Depois disto em quase todo lugar passou a ser proibido fumar, em alguns países até na rua, a céu aberto não pode pitar, aí já é um comunismo, como dizia a Conceição...

É claro que não parei por causa disto.

Algumas pessoas que me conhecem bem e sabem do meu prazer tabagístico me perguntam se parei por ter levado um cagaço, um coraçonaço, ou coisa do gênero. Não foi nada disto. Parei de fumar sem sentir absolutamente nada, a não ser um leve pigarro que carateriza os fumantes e nada mais. Tanto é que caminho uma hora por dia e corro 15 minutos, o que para um cara de 56, com quase 57 e fumante (inveterado ou invertebrado?), não é nada mau.

Esperar ter um câncer de pulmão, um enfizema ou um beriberi cardiovascular, para só então parar acho que é burrice, pois se tiver tudo isto, então continua a ter pelo menos um prazer - o de dar belas baforadas pensando que aquela pode ser a última...

Se eu tivesse alguma garantia divina que não morreria por fumar, confesso humildemente que fumaria até os cento e poucos. Como o Senhor deve ter coisas mais importantes para se envolver e não me disse nada, nem que sim nem que não, achei melhor não arriscar.

Escrevo no dia em que completei uma semana sem o bendito e não tem sido tão difícil como poderia se imaginar, o chiclete de nicotina ajuda um monte, sinto vontade de fumar e saco de um nicorette 2 mg que custa 35 pila cada 30 chicletinhos (pobre não pode ter esta ajuda).

Tenho um pouco de insônia e um pouco de irritação (vontade de matar sem causa aparente), mas isto vai passar...

Pessoas que fumam e sabem que parei, evitam fumar perto, mas digo que não é isto que dá vontade, o que dá uma gana são aqueles momentos em que eu mais curtia pitar, como durante o mate da madruga, depois do café da manhã, ao tomar um uísquinho, ao montar a cavalo e sair para o campo, ao escrever no computador (deixa eu pegar um nicorette), acho quer mudar a rotina é uma boa estratégia, mas confesso que não mudei nada e vou conseguir...

Acho que escolhi o momento mais adequado, porque estou numa fase da vida sem muitas tensões e isto ajuda um monte. Não dá para imaginar parar quando você está para decidir um grande negócio, ou quando o Grêmio vai decidir a Libertadores (só em 2011), até lá já esqueci o gostinho.

Resolvi escrever sobre isto porque quanto mais pessoas souberem que criei vergonha na cara, mais gente vai ter para me cobrar se um dia tiver uma recaída. Mais um nicorete...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pois é meus amigos, depois de um ano sem postar nada aqui, eis que me deu vontade de voltar.
O texto abaixo escrevi para um jornal daqui de Rio Pardo e me deu vontade de compartilhá-lo com voces...
BRABO E BURRO
Pois o meu avô paterno, o Seu Osório, tinha algumas tiradas interessantes. Dizia coisas que quando eu era piá ranhento, nem me apercebia do que se tratava ou não fazia a menor idéia do que ele estava dizendo ou queria dizer.
O mais curioso em tudo isto é que, passados muitos anos, volta e meia lembro-me de algumas destas expressões, talvez por associá-las às circunstâncias do momento ou por me dar conta, após tanto tempo, da sua sabedoria e da sua contextualidade.
Uma destas famosas assertivas do Seu Osório me ocorreu um dia em que estava no Sindicato Rural e um associado contou-me de uma passagem, na qual ele tentava negociar um gado com um comprador e dele recebeu uma proposta muito aquém do que imaginava.
Como o vivente é um pouco estourado, ao ouvir a proposta indecorosa, saiu esparramando as garras, xingou até a quinta geração do tal comprador e botou-o para correr e nunca mais voltar. Em resumo ele ficou brabo e burro ao mesmo tempo – perdeu um comprador e o negócio.
E era isto que o meu vô dizia: “olha guri, não se pode ficar brabo e burro ao mesmo tempo, porque não dá certo – ou se perde um amigo ou se perde um negócio ou se comete um desatino. Pode ficar brabo uma vez e burro em outra ocasião, mas nunca os dois juntos.”
Isto ele medisse após tentar tirar uma fechadura de uma porta, cujos parafusos estavam com a fenda gasta e a chave sempre escapando. E eu por ali brincando e ouvindo os impropérios e palavrões que escapavam durante as frustradas tentativas.
De repente ouço uma espécie de urro de revolta do meu “calmo” avô e os sons mudaram, passaram a ser de machado em madeira... A cena era a seguinte: a fechadura teimosa estava sendo tirada com madeira e tudo através do machado do seu Osório. O resultado foi uma porta inutilizada com uma meia lua faltando e um dedo cortado na altura da unha, tudo resultado daquela combinação diabólica da brabeza com a burrice.
Confesso que já tive meus momentos apocalípticos com os dois impulsos macabros ao mesmo tempo. Os resultados nunca foram muito bons...
Outro dia eu volto, talvez daqui um ano ma o meno...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Ainda sobre a preguiça

Vou aproveitar a linha da última postagem do Thiago e vou falar na tal de preguiça, aquela leseira que todos tem, uns às vezes, outros quase sempre...
Mas tem umas preguiças que duvido quem ainda não as tenha tido:
1)Tu num baita sono, 4 horas da manhã, depois de uma porranca, acorda com a boca seca e uma sede de camelo e a cozinha distante 300 km da cama e o vivente fica vou não vou... a sede é grande mas a preguiça é maior, dorme de novo, uma secura por dentro que consome...
Confesso que já tive até preguiça de pegar o copo que está na mesa de cabeceira...tsc tsc, falhas de caráter...
2)Noite agradável, nem frio nem quente, pouca coberta ao deitar, mas lá pela madruga o tempo vira e vem uma friagem de renguear e aí o penitente acorda louco de frio, todo encolhido, se enrola na colcha de chenil (esta é antiga), mas o frio continua e o edredon (aquele bem fofinho e quentinho) está ali no roupeiro a mil km da tua cama e tu te encolhe, bota um pé por cima do outro, as mãos debaixo do corpo e a danada da preguiça ganha mais um round, dorme com frio...
Não sei as de voces, mas as minhas estão sempre relacionadas ao sono... huuuuuuuaaaaaa

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Cidade do interior


Aí eu e o Bidu no Dia dos pais - sou pai ou avô dele?



Pois podem falar o que quiserem, mas é bem bom morar numa cidade pequena do interior.


É claro que tem suas desvantagens e poderia começar pelas poucas opções de compras, de restaurantes, ausência de cinema, de teatro, etc. etc.


Entretanto, nós caipiras temos algumas coisas que a maioria dos moradores das grandes cidades não tem e poderia começar pelas relações interpessoais, aqui temos vizinhos na verdadeira acepção da palavra, do tipo de te levar uma canjinha quando o vivente tá meio pesteado ou de bater na tua porta se ele não ver o teu focinho por mais de um dia (será que este penitente não bateu com as dez aí dentro?), ou então te fazer uma visita (alguém ainda lembra disto?).


Continuando a relação das benesses do interior: o trânsito é sem estresse e ninguém buzina atrás de ti se demorares um segundo para arrancar na única sinaleira ( ou semáforo para os mais eruditos) da cidade! Sim senhores e senhoras, Rio Pardo possui 10 mil carros, 4 mil motos, 1 mil caminhões e trocentas carroças e só tem uma sinaleira e não precisa mais...


Aqui temos o que se pode chamar realmente de via expressa, cito a Avenida dos Amarais que tem mais ou menos uns 5 km de extensão, via preferencial e nenhuma sinaleira - alguém sabe dizer quantas tem na "via expressa" da nova perimetral de Poa? Aquilo lá se transformou num verdadeiro caos!


Outra coisa boa é a segurança pois dá para sair a caminhar e pasmem, inclusive à noite, sem qualquer risco de um marginal te meter o tresoitão nos cornos ou levar teu carro ou te roubar os tenis Nike ou te deixar de cuecas em via pública. Eu mesmo saio para uma caminhada todas as noites com a Xica e o Bidú há muitos anos, sem problemas. É claro que ocorrem os pequenos furtos, mas isto é café pequeno...


Sei que é dificil abrir mão de algumas coisas, principalmente quando se é jovem, o Thiago e a Paula saíram para buscar trabalho e este é um dos problemas das cidades pequenas - a falta de boas oportunidades de emprego, mas enfim é preferível ser um rico com saúde do que ser um pobre doente...


Será que convenci alguém para morar emRio Pardo?

Aí umas imagens da Cabanha Santa Flora, distante 20 minutos de casa.
Obs: Este condomínio vertical de Joãos-de-barro nunca foi assaltado...