Há alguns dias faleceu minha mãe, lá em Bagé, aos 90 anos, bem vividos.
Sabe aquela situação que temos que encarar como a ordem natural das coisas? Pois é isto: o normal é os filhos sepultarem os pais, o complicado mesmo é o inverso.
Os leitores devem estar se perguntando e com razão - tudo bem e daí o que tenho a ver com isto?
Com a minha questão pessoal, nada a ver, mas a triste experiência me levou a pensar sobre os nossos complicados rituais fúnebres.
Primeiro vem toda aquela história de escolher o tipo de caixão, roupa, adornos, velas, flores, coroas, etc. – tudo o que alguém que perdeu um ente querido não gostaria de fazer.
Depois vem a compra da sepultura - se ainda não tinha sido feita em vida. Quer no primeiro ou no quinto nível? Ao comprido ou atravessada? – Sei lá!
Depois os funerais, onde se vela o falecido e passa-se uma noite em claro, tomando muito café e mate, jogando conversa fora com quem se arriscou ficar por ali, sim arriscou, porque de madrugada é uma barbada para os meliantes assaltarem uma família fragilizada pela perda, aliás, parece que na capital dos gaúchos nem estão mais velando ninguém de madrugada.
Bom, depois da noite insone começam a chegar os amigos, os familiares distantes, os conhecidos, os vizinhos, os ex-colegas, etc., aumentando consideravelmente a quantidade de pessoas, às vezes num espaço exíguo. Se for verão fica insuportável e se no inverno, desconfortável – quente lá dentro e frio na rua.
Na maioria das vezes estes cerimoniais servem para fazer o reencontro de parentes esparramados pelo mundo, gente que era muito chegada e que, passados vários anos, acham-se nas exéquias de um familiar.
Neste momento a cerimônia fúnebre torna-se quase uma festa, muita gente na rua, muitos abraços e beijos, muitos “bah como tu tá bem”; outros pensando, mas não dizendo e outros até dizendo: “mas tu tá um caco”; algumas ruminando: “esta aí não pode estar mais repuxada de plástica”; uns pensando ao ver o carro velho de um que chegou de longe: “quem te viu quem te vê”...; outros ao ver um chegando com um carrão novo: “este aí deve estar mamando”...
E assim vai até a hora do sepultamento. Os mais chegados do falecido virados num bagaço, tanto física como psiquicamente, ainda tem que enfrentar toda esta maratona.
As grandes cidades enfrentam sérios problemas de espaço para sepultar seus mortos, isto sem falar nas questões higiênicas.
A grande saída, sem dúvida, é a cremação, que transforma tudo num punhado de cinzas as quais podem ser colocadas em qualquer lugar.
As minhas, por exemplo, serão jogadas em determinado lugar, lá no Gavião e servirão para adubar os pastos que uma vaca irá comer – nada mais justo: adoro carne e em carne me transformarei.
Só que cremar ainda é um processo muito caro, disponível somente nos grandes centros, o que dificulta até para quem pode pagar, mas está lá nos confins do Rio Grande.
Talvez fosse o caso de o governo estadual e federal, em conjunto com a iniciativa privada – as PPPs, construírem crematórios regionais para procurar sanar esta lacuna, mas isso é uma utopia, pois não conseguimos construir nem presídio, o que dirá crematório?
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